Foto ilustrativa em homenagem ao casal Catarina e Angelim Nalin, que juntos viveram quase 80 anos com esse amor tão lindo.


O que faz ali aquela mulher, tão triste, no escuro do quarto?

É noite. Mais uma das milhares naquele casamento aprovado há 28 anos no céu e na terra pelo cumprimento das leis de Deus e dos homens.

Casamento é amor, é doação, compromisso. Amor que tem contrato, onde há testemunhas e descrição do compromisso das duas partes, a maior delas é que representa uma
aliança eterna, aliança que se faz no céu e na terra.

Ali, naquela noite, o marido, alegando direitos celestes e terrestres, busca o prazer do seu corpo. E ela cumpre o dever paciente, sem prazer no corpo, mas com a sensação de não faltar com os votos que fez na cláusula que exprime a abdicação de ter vontade própria.
Ele é homem, ele é caçador, ele tem que pegar. Pegar faz parte da função dele nessas aprovações que buscaram no inicio no interior de suas famílias, da igreja, do Código Civil.

Agora estão ali, no meio da noite, cada um no seu lugar. Mas, ela, digamos assim, exaurida pelo dia tomou banho, se perfumou, vestiu peças incríveis de lingerie e se mistificou numa camisola que jamais deixaria o caçador pensar que a sua caça não desejava ser o seu manjar. Nem passa pela cabeça o que se passa como raio na cabeça dela.

A enxaqueca sempre ajuda nessa hora, mas quando usada muito seguidamente é contraindicada. Ele está ali, pensando naquilo, querendo ou parecendo querer muito aquilo e aquilo era o que de mais perfeito ele aprendeu a fazer.
Uns quilos a mais acumulados ao longo dos anos de insatisfação desautoriza a caça a ser caçada com aquele velho poder de sedução, ou, pelo menos, de sentir-se irresistível como parecia nos dias que sucederam a traumática lua de mel.

Traição, separação, reclamação com amigas, cara feia, nada disso consegue ser maior do que ela sabe que tem que ser. Mas sem tranquilizantes ou insônia, sem a sensação de ser objetivo onde ela entrou para ser sujeito. Faltam-lhe forças e as vezes até parece que as ilusões se absolutizam na imaginação, mas a paz sempre advém de uma vida consciente, aprovada diante de si mesmo, de Deus e dos homens.

Ela não detesta o sexo, ela detesta a forma como vivem, onde o homem se super valoriza e a mulher tem que ir no galope. Respeito e valorização, diálogo e algum lazer com a prática de uma vida de fé, com investimento mútuo na relação costumam ser a metade da solução desses problemas.

Todos sonham ser feliz no amor, mas não é obrigatório ser feliz sempre, embora seja o mínimo que uma mulher merece. As vezes os atos e fatos matam a convicção que nunca subsiste a uns gritos, a umas mentiras e a olhares mútuos de crítica, ciúme excessivo e/ou de repreensão.
Não é falta de fé, nem egoísmo. Há gritos que falaram mais que dias de afago. Há derrotas que marcaram mais que os renovos. E ali está essa mulher, tentando ser caça valente, ser a mulher virtuosa que vale a pena para um homem ter em casa.

O homem teve chances de se regenerar, ela deu, muitas. Nada acontece do nada nessa vida. Uma flor que vai fenecer vai fenecendo dando sinais de que está indo embora. O amor é a mesma coisa.

Por mau entendimento da Bíblia, eles falaram sempre de perdão, mas um perdão de boca para fora. Muitas vezes no casamento o perdão espiritual expresso com os lábios representa apenas a impossibilidade interior que a pessoa tem de perdoar os outros e a si mesma.

Tudo desaba ali naquela cama, nessa noite. Ela, heroína, lacrimeja, fecha os olhos, abre o que tem que abrir e ele arma o arco e a flecha para atirar com volúpia.


Certo de que aquilo é o melhor que tem a fazer.

Nessa hora Deus espera cumplicidade madura dos dois. E eles se relacionam um com outro, como se o mundo fosse acabar. Cada vez que isso acontece, realmente, para ela, pode ser o mundo que esteja caindo abaixo, pois falta-lhe o chão para sentir-se firme.

O problema não parece espiritual, é humano porque trata-se de uma escolha dela manter as cláusulas do contrato.

Atos e fatos envolvendo duas pessoas que foram criadas à imagem e semelhança desse Deus amor poderoso , que dotou essas duas pessoas de inteligência, vontade e liberdade para exercerem o livre arbítrio. Livre arbítrio inclui dizer que se pode fazer escolhas de felicidade ou de infelicidade.

A fé entra nessa hora. O mesmo Deus que renova as forças de uma águia, pode reacender o fogo do amor nessa mulher, desde que ela se sinta respeitada no seu limite humano. Ela só não deve ir buscar apoio psicológico na igreja e benção no terapeuta.

Tudo numa noite só em mais uma noite de uma princesa tão especial.

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