“Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee, a tua mais completa tradução


Nossa penúltima homenagem a Paulo Henrique Amorim. Instituições criticam ações de Covas e Doria aos moradores de rua. Morrer de frio é morer diversas vezes numa vez só.


Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi
De mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende de pressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Panaméricas de áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo Quilombo de Zumbi
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa
E Novos Baianos te podem curtir numa boa. (João Gilberto e Caetano Veloso)

 


       Esta impressão de São Paulo todos continuamos tendo hoje em dia com as providências elitistas, desumanas, desastrosas e agressivas dos atuais Governador do Estado e Prefeito da Capital.

          A chegada da frente fria a São Paulo na fatídica sexta-feira, 5 de julho, é possível causa mortis de pelo menos sete pessoas em situação de rua.

    Naquele final de semana, a capital paulista registrou a temperatura mais baixa de 2019 por dois dias consecutivos.

         No interior, por sua vez, o frio bateu recorde de oito anos em alguns locais, de acordo com informações do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

       Essas informações colhi do Portal r7 para dizer algo público suficiente contra esses dois aliados políticos de ocasião que não sei onde aprenderam a ser tão unidos contra quem mais precisa deles por não ter nada nem ninguém para se socorrer.

         Devido às temperaturas perto de 0°C, o cuidado com essa população deve ser redobrado para que eles não morram de hipotermia (quando a temperatura do corpo cai em decorrência de frio extremo). Ao R7, associações que ajudam pessoas que moram nas ruas falaram sobre a falta de eficiência dos abrigos e albergues de acolhimento.

         Kaká Ferreira, fundador da ONG Anjos da Noite, que realiza trabalho social desde agosto de 1989, contou que o cenário se deve muito à ausência de ações do poder público. “O aumento da população de rua é em função da falta do Estado mesmo. Essas pessoas são um retrato da crise”, explica. “Quando aumenta o número de pessoas na rua, aumentam também o número de albergues. Mas por que eles não vão para esses lugares? É fácil de entender: o problema é a forma como eles são recebidos”, completa.

            Ainda de acordo com Kaká, a queixa mais recorrente dos moradores em situação de rua é a “falta de humanidade” como são atendidos. “A maioria deles não é bem-recebida. Você não pode colocar para trabalhar num lugar desses uma pessoa que não tem o mínimo de humanidade. Tem que ter comprometimento, empatia. A pessoa já está fragilizada, sem autoestima, por estar na rua. Não pode ser tratada de qualquer maneira.”

            Barbara Mello, fundadora da ONG Amor + Ação = Doação, que faz ações desde 2015, concorda com Kaká. “Eles falam bastante que nos abrigos existe muita violência, desorganização. Alguns se queixam até de estupro, de roubos. Geralmente, quem vai para os abrigos são as mulheres com crianças pequenas. 

          Os homens não vão porque acaba tendo roubo entre si, porque eles não podem levar praticamente nada, só vão com a roupa do corpo”, detalha. “É uma situação muito triste”, desabafa.

              Kaká ainda faz outra denúncia: a falta de manutenção e de higiene. Segundo ele, a população em situação de rua também se queixa da imundície e da quantidade de bichos. “Tenho acompanhado bastante essa situação. A sujeira é real. Tem lugar até com percevejo. Eles até falam que para ir para lá e pegar mais uma doença, é melhor ficar na rua mesmo.”

           Barbara também fez mais denúncias. Segundo ela, as doações das roupas de frio e de cobertores não podem ser feitas em todos os lugares. “A gente já chegou em alguns lugares e falaram que as entregas não poderiam ser feitas naquele local porque a prefeitura estava retirando”, garante.

           A reportagem do R7 entrou em contato com a Prefeitura de São Paulo e com o Governo do Estado de São Paulo para saber quais as providências eles estão tomando em relação à população em situação de rua e quais as ações efetivas para evitar novas mortes.

         A Prefeitura – que reconhece três mortes na capital, não quatro - informa que faz “acompanhamentos diários durante a madrugada e que intensificou, há duas semanas, a operação baixa temperatura” devido à frente fria do último fim de semana. Ainda de acordo com a assessoria de imprensa da Prefeitura, o número de vagas para a população em situação de rua passa das 18 mil e, segundo o último censo, essa população gira em torno de 15 mil.

       Ainda segundo a comunicação, a Prefeitura realiza um trabalho integrado com secretarias e que algumas pessoas optam pelo não atendimento e preferem ficar sem ir para os abrigos.

             Até o momento, a assessoria de imprensa do Governo não respondeu a solicitação da reportagem, feita por telefone e via e-mail.

                           Ações insuficientes

             Um dos meios oficiais de ajuda da Prefeitura é pela Central 156. Ao ver uma pessoa em situação de rua, basta fazer uma ligação para que a denúncia seja registrada e equipes são deslocadas para atender a ocorrência.

             No entanto, Kaká diz que a ação é insuficiente. “Você já tentou ligar no 156? É um serviço de deboche com a sociedade. Você liga para tudo quanto é lugar, mas não tem retorno em nada. Tem que esperar muito. Não resolve de imediato”, avalia.

             Além disso, Barbara reclama da falta de ambientes seguros. “O Governo tem que se preparar para essa situação. Já vinha sendo dito sobre a frente fria e veio muito forte. Eles deveriam preparar algum lugar que realmente fosse seguro para eles. Eles estão em situação extrema, mas são seres humanos e precisam de dignidade. Precisa de fiscalização, ambientes limpos, seguros. Se o poder público fizesse a parte dele, não precisaríamos fazer trabalho voluntário.”
            
                        Acolhimentos na região central

            A ONG Anjos da Noite ajuda, em média 800 pessoas em situação de rua por fim de semana. A população recebe alimentação, água, roupas de frio e cobertores. As assistências são feitas aos sábados e contam com ajudas de voluntários.

           Já a ONG Amor + Ação = Doação atende cerca de 500 pessoas apenas no inverno, por ainda estar no começo e ter um alcance de doações menor. Segundo Barbara, as visitas são feitas pelo período da manhã e os sem-teto recebem café da manhã, uma das refeições mais negligenciadas para essa população.

          Tanto Kaká quanto Barbara criticam o fato de os locais de acolhida não ficarem na região central de São Paulo, em que se concentra a maioria da população que está na rua.

          “O acolhimento não poder ser no fim do mundo. O cara está aqui no centro da cidade. Lógico que tem que ter atendimento na periferia, mas só lá é meio suspeito. Me parece que é para tirar o pessoal do centro, como se fosse para transferir o problema. Tem que trabalhar numa direção contrária, a da inclusão”, avalia Kaká. “Você tira eles da visão da sociedade e coloca o cara lá no fim do mundo? No meu entendimento, desde os anos 2000, quando começou com a história de revitalizar o centro, me parece uma política higienista. E é algo recorrente nos governos. Todos fazem a mesma coisa: querem a cidade linda, não acolhe e esconde nas periferias.”

             “Com os abrigos fora do centro, eles não conseguem nem chegar. Eles não têm dinheiro para pegar ônibus, metrô. O próprio aspecto de morador de rua o impede de entrar no transporte público. O poder público o impede de chegar até lá, a rejeição é total. A minha leitura é: se você faz um centro de acolhida longe da região central, é para o cara não ter nem como voltar. Isso eu percebo já faz muito tempo.”

                Barbara concorda com as denúncias. “O morador de rua é visto como a sujeira. O poder público só quer tirar a galera das praças”, afirma.

                Kaká diz ainda que “o poder público perde tempo” com esse movimento de revitalizar. “Eles querem fazer bares noturnos, onde era o centro financeiro, enchem de viatura da GCM (Guarda Civil Metropolitana) para não permitir nosso acesso. Eles querem proteger uma área para construir boteco. Para isso tem policiamento. Mas para dar assistência social, não tem”, desabafa. “Eles querem expulsar o povo de lá”, acrescenta.

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