Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou? Se já parou para pensar numa inversão de valores, essa é a mais perversa delas: trocar a vida pela morte. Escolher a não vida pela falta de sentido afirmador da própria existência, coisa que brota da fé, da autoestima e do autopoder.  Suicida-se gritando o quanto de valor a vida teria se soubesse vivê-la com perfeição. Morre-se imaginando que só a morte escancara o valor incomensurável da sua própria vida. 


Todos que amam alguém ou se amam, se preocupam, se mobilizam. Vi como o jovem suplente de senador e vereador de mandato em Araguaína ficou impactado e comprometido com a causa do combate ao suicídio. Acompanho as reações e providência de Terciliano Gomes depois do encontro/2019 dos profissionais de saúde mental, organizado pela ONG FUTURO e pela Rede de Atenção Psicossocial do Município no ITEPAC. 

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           Também me lembro claramente da primeira vez na vida em que ouvi alguém falando em suicídio. 

          Lembro-me tanto assim porque Ida era uma moça linda, alegre, dada, feliz. Aparentemente ela não tinha motivo algum para dar fim à própria vida. Mas um dia eis que ela foi encontrada morta na cama.

         Diziam na redondeza que ela tinha ingerido uma enorme quantidade de folhas daquela flor lúgubre chamada “comigo ninguém pode”.  Se era se não era nem me interessou e hoje menos ainda valeria a pena mexer no passado. Sei bem os motivos que levaram-na a se desinteressar lentamente pela vida na sua bucólica Capivari de cima.

            Vamos admitir o suicídio como "ato intencional de matar a si mesmo, cujos  fatores de risco incluem perturbações mentais e/ou psicológicas" como depressão, perturbação bipolar, síndrome do pânico, decepções mal administradas e até a banalização do sentido da vida e ausência de alguma fé religiosa.

           Tenho motivos de sobra para viver tão alarmado com a violência domestica, prima irmã da falta de interesse pelo outro, que descontruiói  o romantismo,  o cavalheirismo, o respeito e o amor que evadiu-se dos corações, tanto do homem quanto da mulher em geral.

           Naquele tempo em que Ida suicidou-se eu era menino de calças curtas e chinelo de dedo, falastrão e observador à bessa. 

           Ida morava ali na rua Bento Dias na subida de quem vinha de Camapinas, passava a ponte do pujante rio Capivari, do lado direito. 

           Sua área era cheia de plantas. Plantas que a mãe dela cultivava com todo amor e carinho. Uma delas tinha folhas verdes lindas, vistosas, grandes e crescia em enormes vasos. Teimosa, não morria de jeito nenhum, nem no verão nem no inverno, durava feito gente ruim. Chama-se fatidicamente COMIGO NINGUÉM PODE.

           Nesse tempo ai era meio moda mergulhar fundo numa relação amorosa, de forma que o outro passava a valer mais do que a gente. 

           A tragédia é um gênero literário que faz sucesso desde a Grécia antiga, passando por Roma, Paris, NovaYork, Madri, Rio de Janeiro, Buenos Aires. 

          Uma tragédia sempre tem origem numa frustração amorosa. 
Suicidar-se por amor como Ida, por desejar um romance não correspondido até parecia virtude, ela saiu dquela realidade amorfa de negação para ser a protagonista de uma trágica aventura. Ida só admitia duas saídas: a pessoa ou a morte. 

                                                   

        Assim: “De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar se você não vem e eu estou a esperar. Só tenho você no meu pensamento e a sua ausência é todo meu tormento. Quero que você me aqueça nesse inverno e que tudo o mais vá para  o inferno”.

           Roberto Carlos cantava isso nas rádios do País todo dia o dia inteiro e na TV Record na Jovem Guarda aos domingos, que parava o Brasil para vê-lo mostrar o quanto romantismo era um bom negócio para ele e seus investidores. Carlos Imperial (TV), Fred Jorge(CBS), Marcos Lázaro (empresário do cantor) e Adolfo Bloch (revistas). 

           Roberto achou esse nicho e a gente achou ele. Ninguém de nós pensava na grana alta que rolava, exceto o Tim Maia, que tinha consciência, foi posto para fora da festa. Cantava bem melhor que o Roberto e Erasmo, mas tinha pouca inteligência emocional. 

          A juventude em geral só queria curtir o rala e rola na área da sogra que tinha que ficar com a luz apagada quando o sogro dormia cedo. Quando o malho era bom, todo mundo levava para casa a energia do outro e ficava babando e sonhando, querendo mais. Umas deixavam, outras não. Mas nunca deixava de valer a pena tentar.   
              Você nunca vai encontrar um suicida que se mate do nada, de uma vez, sem pedir socorro, sem avisar. Ida era rica, perdeu o coração do borracheiro pobre na base do Leno e Lilian: “Todo mundo tem um amor na vida, que por ele tudo é capaz. Eu tenho uma paixão que é proibida só porque sou pobre demais....”

            Impossibilitada pela briga de família, pelas humilhações ao pretendente, ela cedeu, mas não aceitou;  tentou até se distrair se divertindo com alguns homens ricos errados até que chegasse outro homem certo.

              Mas a coitada não conseguia acreditar que pudesse existir mais de uma paixão ardente para cada par de namorados. O dela tinha ido. E ela ficara sem chance, gastara o seu único cartucho em alvo errado.

              Por causa disso, a luta diária perdera de ter alguma razão de ser para a pobre moça rica. A vida esvaiu-se no vento das ondas sem sentido de uma vida em busca de coisas importantes a fazer por si mesma.

             Num caso como o de Ida a morte surge não como problema, mas solução, das mais contundentes e imediatas. Morreu, acabou o dilema,  pensava talvez ela que não era afeita a ir à igreja nenhuma. 

            O silêncio ocupa desde sempre o primeiro lugar no ranking das respostas. Ele responde tudo, a todos, o tempo todo, sem pestenejar. Pergunta, resposta, silêncio. Pronto.

            As vezes não falar significa dizer muita coisa. Todo suicida lança sinais bem claros e desesperados de que gostaria de ficar na terra mas não saberia permanecer aqui.

             Acompanhei em Araguaína como assessor do vereador Terciliano Gomes esse evento dos profissionais de saúde mental, o  Fórum de Saúde Mental, organizado pela Ong FUTURO e pela Rede de Atenção Psicossocial do Município. 

           O dado mais assustador apresentado lá foi a crescente onda de suicídio, que, como é o caso dos jovens internautas em seus games, se matam do nada em troca de um reconhecimento virtual e de uma sugestionada relação de pertencimento  ao grupo. 

           Estima-se que em todo o mundo todo ano aconteçam cerca de 10 a 20 milhões de tentativas de suicídio não fatais, que, mesmo quando não matam, podem provocar lesões incapacitantes. 

          A cada ano morrem por suicídio 0,5% a 1,4% das pessoas, ou 12 em cada 100 000 pessoas. Três quartos dos suicídios ocorrem nos países em desenvolvimento. 

        As taxas de suicídios consumados são geralmente mais elevadas nos homens do que nas mulheres. Em países em desenvolvimento suicidam-se 1,5 vezes mais homens do que mulheres e em países desenvolvidos suicidam-se 3,5 vezes mais homens do que mulheres. 

         O suicídio de Ida também obedeceu essa estatística. Os caras eram mais frouxos e davam fim à vida muito mais que as mulheres. Com alguma coragem volto e conto a história de uns. 

         As três mais delicadas perguntas do ser humano persistem desde os primódios na sua mente, alma e coração, pois agora mais do que nunca: 

        QUEM SOU? DE ONDE VENHO? PARA ONDE VOU?

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