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       “O amor é cego, por isso os namorados nunca vêem as tolices que praticam”, escreveu o teatrólogo William Shakespeare para um dos teatros do velho Reino Unido.

        Mas também anotei a versão da menina que se sentava na carteira do meu lado esquerdo na escola primária. 

          Ela era linda, simples, romântica, inocente, mimada e tinha todas as balas e doces que queria para nos dar, porque seus tios avós sem filhos eram donos do bar da esquina da rua XV com General Osório. 

         Para merecer aquela montanha de quitutes bastava levar recortes de revista que eu encontrava no depósito de recicláveis do seu Francisco. O recorte tinha que ser bem feito contendo o rosto de algum galã da TV que ela compensava com balas Chita, doces de leite, goma de mascar, chicletes Adams e caramelos Dulcora; ela inclusive por isso deixava que vissemos as sigilosas anotações do seu cobiçado diário.

                                                         
                                                   

        Porque não sei, mas a rapunzel em questão só podia sair de casa para ir à escola. Sua familia não era de religião, então essa desculpa das outras meninas, ela infelizmente não tinha.  

         Uma vez estava escreito lá diário dela e curioso decorei: 

         "Sabe por que o amor é cego?"

         Dando uma resposta aproximada, claro: 

        Porque a gente não ama cabelo, não ama a roupa, não ama o corpo, não ama a cor dos olhos, e enfim, não ama o físico. A gente ama o sentimento, a atenção, o carinho e isso não se vê, se sente.

      Lendo Shakespeare vi que isso era dele. Quando a  Loucura resolveu convidar os amigos para tomar um café em sua casa e todos os convidados foram.

     Após o café, a Loucura propôs:

     “Vamos brincar de esconde-esconde?

      Esconde-esconde? O que é isso? - perguntou a Curiosidade.

      Esconde-esconde é uma brincadeira. Eu conto até cem e vocês correm se esconder. Quando chegar no cem, eu vou procurar e o primeiro a ser encontrado será o próximo a contar até cem.

     Todos aceitaram, menos o Medo e a Preguiça.1,2,3,... - a Loucura começou a contar.

        A Pressa escondeu-se primeiro, num lugar qualquer. A Timidez, acanhada como sempre, escondeu-se na copa de uma árvore.

       A Alegria correu para o meio do jardim. Mas a Tristeza começou a chorar, pois não encontrava nenhum lugar adequado  para se esconder.

      A Inveja acompanhou o Triunfo e escondeu-se ali perto dele,  debaixo de uma pedra.

      A Loucura continuava contando e os seus amigos iam-se escondendo um a um.

      O Desespero ficou do seu jeito apavorado ao ver que a Loucura já estava no noventa e nove.

     “CEM!” - gritou a Loucura. Pronto.

      Vou começar a procurar vocês.

      A primeira a aparecer foi a Curiosidade, já que não aguentava mais, queria saber logo quem seria o próximo a esconder a cara para contar até cem.

      Ao olhar para o lado, a Loucura viu a Dúvida em cima de uma cerca sem escolher em qual lado poderia melhor se esconder.

      Foram voltando todos.  A Alegria, a Tristeza, a Timidez.

      Quando estavam todos reunidos, a Curiosidade perguntou:

      “Onde está o Amor?” Perceberam que ninguém o tinha visto em lugar algum.

       A Loucura começou a procurá-lo. Procurou em cima da montanha, nos rios, debaixo das pedras e nada do Amor aparecer.

       Procurando por todos os lados avistou uma linda roseira, pegou num pauzinho e começou a procurar entre os galhos, quando de repente ouviu um grito surpreendente.

       Era o Amor, gritava de dor e sangrava, pois o amor tinha furado o olho com um espinho.

      A Loucura, bem desapontada, não sabia o que fazer. Sem graça com o mal feito pediu insistentes desculpas, implorando o perdão do Amor e até comprometeu-se efesuivamente a segui-lo para sempre pelos caminhos da vida.

      O Amor aceitou suas desculpas e sairam juntos. De forma que até hoje o Amor é cego e a Loucura acompanha-o por todo lado, como prometeu, para sempre, inclusive nos filmes e canções em todos os tempos no mundo inteiro, até nessa do 1Kilo: “Esse papo de que se tu não existisse eu te inventaria é tão clichê, mas cai tão bem quando se trata de você”.
      
       
      



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