A família é aquele grupo de pessoas com quem você se sente verdadeiramente em casa, que você pode ficar à vontade para ser você mesmo e não ter que se adequar à exigências absurdas. Família é espírito, eu creio....                                                  
                  Nessa foto há muito amor envolvido – Igreja Matriz de São João Batista - Capivari-SP.

             Capivari dos anos 70 era ainda uma cidade bem tradicional e tradicionalista católica, cheia de informações modernas por sua proximidade com Campinas e São Paulo e pelo seu poder aquisitvo. 

            Nessa época eu era apenas um esperto menino órfão do Lar de Jesus, que tinha trânsito livre pelas ruas e por muitas casas onde até abusivamente entrava a qualquer hora do dia e da noite. 

            Sempre fui, sou e serei mulheres futebol clube. Elas pagam mais o pato pela estrutura familiar e social. E por sentir muita pena do que minha mãe passou para me deixar estar aqui batucando palavras para você, sou torcedor incondicional delas. 

            Muitas mulheres funcionavam para mim como "mães" anônimas nas horas difíceis e eu sabia bem seduzi-las para serem as boazinhas que eram, fazia tudo que queriam que seus filhos fizessem mas que eles não faziam por pirraça. 

           Bem cedo aprendi por intuição que sabendo usar não iria faltar, portanto pirraça para mim já seria demais, o meu papel era fazer o joão certinho. Eu pagava bonito de filhinho. E era uma delicia. 

           Acham que mulheres foram feitas para serem entendidas? Nem tentem. Vão pescar.  aprendam com quem sabe, mulheres foram feitas para serem aceitas e ponto. Elas pode ser tudo, mas sempre com o espelho na mão. 

          Nunca se perde na multidão se vê inteira, pessoal, indivisível e intransferível. 

         Por isso a palavra mulheres é bem pejorativa e falaciosa. Mulheres só falam MU-LHER, elas se vêem com exclusividade na terra, única, especial; poderosa. Como um ser encantador que encanta, que exige ser amada como ela é e não como ela deveria ser ou como as outras são. Vai por mim se você não gosta mesmo do sofá, diga sempre muuuuuuuuu-lher, nunca mulheres.

           Muitos homens, que se chamavam entre si de "boa vida" eram quase meus pais também, principalmente na hora de, sem nenhum dinheiro, pela rua, pleitear comer ou beber alguma coisa diferente "gostosa".

           Certo é que, porque não sei, nem me pergunte, eu conseguia observar as coisas, os fatos, as pessoas, os movimentos e elencar com total tranquilidade as mazelas grandes e pequenas que minavam a felicidade dos lares.

                                               

           Era o tempo em que mulheres davam pouco as caras na rua, saiam só para trabalhar, rezar, fazer compras e visitar parentes. Fora isso, tanque, fogão, ferro de passar, empregada para aturar e filhos, muitos filhos peraltas para criar.

         Era o tempo em que mulher era estimulada a ser angelical, complacente, rainha do lar, sentia mais prazer em dar prazer ao marido do que em atingir o próprio orgasmo.

        Muitas mulheres sustentavam a muque a estabilidade da família, com as crenças internas impingidas pela religião, pela tradição, pela pressão em forma de conselho dos pais, pela estrutura social em manutenção das aparências e conveniências e dos bens que sonhavam deixar por herança para os descendentes, a fim de fazer com que os ingratos já de cara não esquecessem da existência dela, que passou pela terra queimando em brasa pela família.

       Marido, oh palavrilha. Ma-ri-do. A maioria que chamava o conjunge de marido ou pelo nome de batismo inteiro, percebia eu, era infeliz no casamento. Mas você acha que ela saia chorando na rua, reclamando dele, se queixando da vida? Nã nã ni nã não.

       Podia até tomar comprimido para conseguir desmaiar a noite, chorar no banheiro, desejar em silencio, mas na rua sabia simular uma alegria que só era real com a vitória dos filhos num bom namoro, frequência à Igreja, boas notas na escola, num elogio de alguém de mesmo nível como ela, enfim... todo filho no imaginário das mães estava obrigado a ser médico, juiz, promotor, coisa grande de destaque. E filha ia arrumar um excelente casamento ou formar-se professora. Aquelas que fizeram as duas coisas já arrebentaram a boca do balão. 

      Nada de filho artista. Uns lares abençoados por demais, eram até muitos, sonhavam em ter um filho padre também. Lugar onde consolidei o meu lugar em algumas casas; fui para o seminário e me ordenei padre sim bem na Matriz de São João Batista, essa igreja lindona ai da foto para você curtir. Muito linda.

       Membros de uma família, geralmente pai, mãe e filhos e seus descendentes, costumam compartilhar do mesmo sobrenome, herdado dos ascendentes diretos. De forma que por lá se estabeleceu começar toda abordagem a um desconhecido por este bordão:  “Você é gente quem”?

       No meu caso eu fiz de tudo para me tornar gente de todo mundo. Como padre foi fácil, todo mundo queria. Mas não colou tanto, porque a família é unida por múltiplos laços capazes de manter os membros moralmente, materialmente e reciprocamente durante uma vida e durante as gerações. 

       Eu estava totalmente desenquadrado nessa foto quando o tempo veio cobrar. 

       Mas nunca foi exclusividade minha, infelizmente; pior é o que acabei vendo e ouvindo como padre. E o que vejo quase todo dia em consultório, uma pessoa ter tudo isso, se enquadrar redondamente na foto mas não ter dentro de si a sensação de pertencimento à sua família.

       Sinceramente? Para tudo tem um jeito. "Tudo vale a pena se a alma não é pequena" (Fernando Pessoa). Há relatos de adoções que deram super certo. Papo para um outro dia de inspiração semelhante a hoje. Vida que segue.
B

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