De uma coisa eu sou capaz e me enquadro entre os campeões da categoria. Sei jogar o jogo do contente. Nunca desisto e sempre recomeço, em tudo e por tudo.







     Quem vive de ilusão morre iludido?

     Em 1974 quando eu resolvi ser padre alegrei muita gente e assustei covardemente outro tanto de torcedores.

    Capivari naquele tempo era uma cidade tradicional, pequena, com poucos anos de emancipação e não tinha mais que 70 mil habitantes. Eu conhecia todo mundo e todo mundo me conhecia.

                                                

    Quando digo me conhecia digo a verdade. Sabiam meu nome, o que eu precisava, o que fazia e que era do orfanato espírita, aliás, o mais perigoso amiguinho dos filhos de famílias católicas e protestantes, pois meu cartão de visita era Chico Xavier e o dr Dionino Ângelo Colaneri, dois expoentes do kardecismo, um na região e o outro no resto do mundo.

      Quase todo mundo ficou assustado comigo. Mas, ganhei um valoroso parceiro nessa hora, um velho debatedor antagonista que gostava muito de mim e me conhecia um pouco mais que os outros.

     Era justamente o cidadão mais influente e poderoso do lugar, o pároco da Igreja de São João Batista, da matriz principal, o inesquecível e fiel padre Eusébio van den Aardwg, sscc, holandês de Aarlem, que decidiu confiar e investir e caminhar lado a lado comigo pelo resto da vida.

     Mas, voltando a lembrar que quem vive de ilusão morre iludido, deixe-me falar de um cidadão que ficou contra, absolutamente contra o meu propósito de ser padre e, claro, aquela minha eminente entrada no seminário dos Sagrados Corações de Jesus e Maria em Pindamonhangaba, da qual todo mundo falava na cidade inteira e sei lá se alguém entendia do que falava e se dizia a verdade.

      Só sei que os críticos falavam horrores e os amigos permaneciam irascíveis, calados, mudos, com cara de paisagem.

     No meio dessa multidão que parecia me trocar também por Barrabas  estava Mulembo, que todo mundo pronunciava como queria e muitos o chamavam de Mulembo.

    Foi com ele que aprendi a viver como negro numa cidade cristã, tradicional, de maioria formada por descendentes de italianos e, por isso, vocacionada ao racismo.

   Tinha tudo para ter explodido na era da modernização. Eu mesmo frequentava o Clube 13 d Maio que era no fundo do bar do seu negro seu Pedrinho direcionado para os negros irem dançar e cantar. Brancos iam na Cultura Artística e a nata deles  no pomposo Capivari Clube, onde os galãs de novela iam dançar valsa nos bailes de debutantes quando nossas musas faziam 15 anos. Negro não entrava, entrei só uma vez com Mário Gomes só por causa do Fred, mas essa é de longe uma outra história.

      Porque não sei mas teve um negro que, por amizade e respeito não dou nome nem endereço, conseguiu se associar a esse seleto público e frequentava o lugar como se branco fosse. E era branco mesmo e por tanta pompa na maioria das vezes parecia culpar os negros por serem tão discriminados num lugar em que nem dava pra reagir.

      Mulembo, juro, me ensinou a pensar nisso mais cedo. Ele era um exímio lustrador de móveis e trabalhou a vida toda com o fabricante João Batistela, onde tentei aprender a arte da    marcenaria.

       O que aprendi ali foi a gostar do Mulembo e a dar mais atenção ao que ele dizia. Tomou a minha vida e a colocou em seu coração. Imitava tanto o Wilson Simonal que quando me deparei com o próprio em São Paulo, tive dificuldade de distinguir se não era o Mulembo.

      Na cabeça de Mulembo eu querendo ser padre estava enterrando os meus talentos de único negro que ele podia conversar e trocar ideias por uma Capivari melhor nessa coisa chamada igualdade entre as raças.

     Ele lia tudo sobre Luther King, conhecia já Zumbi dos Palmares e trazia na memória história de negros antepassados fugitivos da escravidão.

      Ele achava que ser padre ia acabar comigo e que não me deixariam chegar lá de jeito nenhum. Que a minha amizade com o poderoso cura da matriz era só superficial e que na hora H um negro sempre levaria a pior. E que a minha religião deveria ser a do povo para o qual, assumindo o catolicismo, eu estava virando as costas.

Portanto, Mulembo achava que eu não faria verão no seminário e que o meu futuro de insucesso estava escrito nas estrelas. Insisti em continuar e, na véspera de viajar, procurei por ele e ele gritou comigo: “PARA MIM VOCÊ MORREU, SEU NEGRO INGRATO E SONHADOR, QUEM VIVE DE ILUSÃO MORRE ILUDIDO”.

       Fiquei padre e exerci com sucesso o sacerdócio na Diocese de Piracicaba. Numa jogada brava de divisão entre o padre Eusébio e o bispo dom Eduardo Koaik, fiquei com o padre Eusébio e juntos levamos a pior. O bispo usou de toda sua artilharia contra nós e ele acabou morrendo triste.

        Mas quando Molembo morreu nem sei, não achava confortável pensar nele até o presente momento.

       Quando o padre morreu eu sei porque ele ficou um tempo extenso em coma e a cidade toda acabou achando que era porque ele queria se despedir de mim.

      O médico José Henrique Forti Antunes foi generoso em me encontrar por meio do Cid Moreira na TV Globo, depois de muita procura e me convidar para comparecer ao hospital, coisa que fiz de imediato e foi chegar lá dar a mão para ele, rezar duas Ave Maria e ele se foi para junto de Deus. 

    Talvez encontrou já o Mulembo por lá que deve estar feliz e satisfeito sem o estigma de louco, sem o custo de vida e talvez sem o maldito fardo do racismo.

     No mais, por fim, deixo meu testemunho de amor e admiração tanto pelo Padre Eusébio quanto por Dom Eduardo. Espiritualmente hoje somos todos amigos e tamo junto.

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