Quando o anjo Gabriel aportou nos aposentos sacros da Mãe das mães em Nazaré anunciando à Virgem que ela estava grávida sem relações sexuais, ajude-me com sua educação, mas não pode ter sido mais aterrorisante do que quando minha mãe percebeu que a esperada menstruação dela  não vinha por dois meses consecutivos, após ter cedido aos assédios e ameaças daquele inconsequente do meu pai.




           Ave cheia de graça o anjo disse à Maria no meio daquela imensa luz divinal em Nazaré, que anunciava um novo tempo para a humanidade pelo nascimento do rei de Israel, filho de David e de Deus. 

           Sua gostosa delicia foi o que o tarado sabia dizer à inocente empregada de sua mãe desejando-a como se fora um daqueles pudins nojentos que vovó também Maria fazia para agradar o mimadão. 

Enquanto isso, na casa grande de meu avô não tinha anjo algum me chamando de fruto bendito; talvez minha sorte seja que nem tudo que não é bendito precisa ser maldito.  Daquele ato pobre porém se anunciava um baita mau tempo para mamãe e, também mais um para disputar a manjedoura e carregar a Cruz com o abençoado filho da Maria de Nazaré. Mamãe merece o céu por evitar que eu fosse abortado. De Maria em Maria a humanidade se mantém.

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         Negra, mulher, Maria sem José, solteira, mãe, minha por sinal, enganada pelo filho da patroa. Minha mãe era mais macho que muito macho em se tratando de enfrentar a vida.                                

         Ao contrário de Maria que estava grávida por vontade de Deus numa relação causal do resultado mistérico e amoroso do Espírito Santo com aquela adolescente e aqui na terra ninguém  imaginava ainda quem poderia ser o pai, mamãe sabia muito bem quem esteve nu com ela na alcova proibida daquela casa de tradicionais católicos italianos que se sentiam já estarem no céu se não estivessem com o nome na lingua do povo. Povo não, desculpe, aquilo era povoado. 

                                                     


         O pai do filho da Maria dos evangelhos titubeou, claro, tentou se esquivar, porque não era o pai carnal, apenas noivo da prometida para ele, mas assumiu o filho dela pela fé.

          O pai do filho da minha mãe ficou mudo, corado, atormentado, com terror no rosto e depois disso com culpa no coração. Ele negou tudo feito um desses réus da lava jato. Eu não tinha pai e não houve fé que desse jeito nele e nos meus avós. Para eles o inferno  deveria ser mamãe e eu na família deles de forma consanguíneo como eu sou, do que encarar a condenação eterna a troco de uma mentira escandalosa e pública como foi e é. Azar o deles. 

        Hoje tornou-se bem mais fácil falar de minha mãe, depois que constelei e constelo. Não a conheci direito, tudo que dela sei são sensações esparsas e informações misturadas de ter ouvido falar.

         Ela era a filha do meio de um casal de descendentes de escravos. Sofria muita pressão alta e pressão por ser negra, mulher e trabalhadora sem profissão definida numa cidade pequena e deveras preconceituosa.

       Ela e o pai dela não se devam muito bem nos últimos dias dele porque ela, na casa onde trabalhava, teve uma relação sexual com o primogênito da patroa, e deu no que deu, a minha existência.

       Era família tradicional italiana a do meu pai. Minha avó de forma alguma aceitou minha mãe e eu naquela “honrada” família. E, mesmo em detrimento da verdade, embarcou o pároco, o delegado, policiais, a alta sociedade para demonizarem minha mãe.

      Do que sei, mamãe comigo na barriga não teve apoio de absolutamente ninguém, a não ser de outras mães solteiras, marginalizadas, negras, que passavam mais necessidade que ela.

      Até meu avô saiu fora. Botou nós nos para correr o mundo, sozinhos. Nessa fase mamãe adquiriu uma certa vergonha de existir, uma sensação de “vagabunda”, mãe solteira naquele tempo (e nesse ainda não está tão diferente) era muito mal vista por moralistas de plantão que preferem sempre atirar pedras ao invés de confessar o próprio pecado.

     Mamãe que era tão xodó do próprio pai se viu condenada à morte moral e à situação de ignorada pelo próprio pai que, pouco mais tarde, pouco antes que eu nascesse, reconsiderou e a chamou para dentro da humilde casa em que ele morava.

      O pai de minha mãe tinha um trunfo em favor dele, o bom nome e uma grande popularidade no povoado ignorante. Por isso preferiu botar panos quentes e jogar toda “culpa” em cima da filha, a fim de que ele mesmo tivesse como andar pelas ruas feliz da vida erguendo a mão de comercio em comercio de portão em portão como se fosse uma “celebridade”.

      Sobre meu pai, ele amargou uma grande infelicidade ao sentir-se um mau caráter mentiroso, covarde e medroso que fez a família cair na desgraça da mentira pública e no sacrifício cruel de uma moça que estava ali só porque precisava do pão de cada dia.

      Porém, muito depois da morte de mamãe, uns 16 anos depois, acho, numa dessas voltas que a vida dá, ao deixar o orfanato em que fui criado, fiquei o melhor amigo do vigário de outra cidade e acabei me encantando por me tornar padre e me tornei.

       Pouco tempo depois de iniciar os estudos no seminário comecei a receber altos presentes por lá. Eu era o seminarista ali que tinha mais grana para tudo. E cobertura dos padres para caprichos pessoa também.
      
       Porém, na noite do dia 6 de dezembro de 1986, eu estava rodeado por uns 20 bispos, cerca de cento e tantos padres e um quilo para mais de seminaristas, todos de batina, eu estava na procissão de entrada da missa quando o arcebispo de Campinas, que era meu bom amigo, chegou também de túnica, mitra, estola, solidéu, mas acompanhado de um homem alto à vera, chorando que nem Madalena arrependida e me abrançando me chamando de “meu filho”. Sem graça fiquei, sem graça permaneci.

      Foi dai que fiquei sabendo que a família dele era bem mais unida que a de minha mãe. Que trabalhava na empresa de ônibus fundada por meu avô italianíssimo e minha avó portuguesa. Também ele era o filho mais velho e com o pai, a mãe e a mulher dele viviam infinitamente felizes que até parecia para sempre.

      Essa lacuna em forma de mágoa profunda que me marcou, só superei graças a um padre velhinho de Campinas que manuseava como ninguém os encantos da Constelação Familiar.

      Minha mãe morreu quando eu tinha 2 anos e na infância a origem da formação da minha experiência do mundo e construção da personalidade foi praticamente um milagre, visto que vida afora fui sempre e sou uma pessoa com valores e força interior.
  
     Estudando agora neste curso de Constelação, vejo que minha orientação resiliente e caritativa me favoreceu ao ponto de não ter construído nenhuma visão de julgamento sobre a vida nem de um nem de outro. Modificou porém a liberação emocional e energética que me permito fazer dos meus avós, pois eu guardava muita tristeza por imaginar a dor e dificuldades que mamãe enfrentou por causa de mim.

      Minha segunda missa na vida foi na matriz com o mesmo padre que não quis me batizar. Era só gente chorando, me dando presentes, minha avó portuguesa envergonhada e os outros avós já enterrados com minha mãe, mas ali na minha frente aquelas lágrimas públicas desenterrava cada um deles.

      Muitas de minhas angústias nasceram disso tudo, a rejeição aos pais, a não aceitação da realidade, a sensação de biônico maldito, filho sem pai, os três pontinhos na carteira escolar, faziam de mim um assustado no meio da multidão.

       Os sentimentos que tive ao fazer esse exercício foram de muita gratidão pela oportunidade oferecida para retomar isso de que falo muito pouco sempre. Outros sentimentos não tive porque encontro-me curado e muito mais preparado para tratar do assunto.

       Eu sempre fui feliz no meio disso tudo porque driblei os lances da má sorte procurando sintonia fina com uma incansável busca por compreensão e aceitação da minha própria história. 

      Mais que ser um constelador, o que considero útil e muita coisa já, busco nos ensinamentos da Constelação uma via de harmonização e felicidade minha e de todos que eu puder alcançar. Todo proveito que dela venha tirando é só metade do proveito que desejo compartilhar.



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